É desconcertante que Kuniyoshi (de quem Kyōsai terá sido aluno entre os seis e os nove anos de idade) seja aviado em dez linhas; que Hokusai seja reduzido a cinco linhas sobre a famosa estampa A grande onda ao largo de Kanagawa; que de Hiroshige, tão genial e prolífico quanto Hokusai e que suscitou tal admiração em Van Gogh que este fez cópias a óleo das suas estampas, se mencione apenas o nome e as datas de nascimento e de morte; que Utagawa Toyoharu (fundador da escola Utagawa), Utamaro, Kunisada e Yoshitoshi (contemporâneo quase exacto de Kyōsai e, quiçá, o nome cimeiro dessa geração) nem sequer sejam nomeados, e que, em contrapartida, se promova Kyōsai, nome que apenas os especialistas da área reconhecerão, como figura emblemática da estampa japonesa. Os aliados ocidentais, ou melhor, os EUA e, em particular, o general Douglas MacArthur, comandante supremo das Forças Aliadas no Japão, decidiram que a função do TMIEO não seria apurar a verdade dos factos e identificar os responsáveis pelos crimes de guerra, mas sim reescrever a história recente de uma forma que fosse conveniente ao desígnio americano de suprimir o nacionalismo militarista japonês e a reconfigurar a sociedade e a organização política do Japão em moldes americanos, ou aceitáveis para os americanos (ver capítulo “Os últimos cem anos” em (ver 2679 anos de solidão: De onde vem a dinastia mais antiga do mundo). Estas declarações suscitaram reacções indignadas pela parte da RPC: o cônsul chinês em Osaka foi ao ponto de propor, na redes social X, a decapitação de Sanae Takaichi, e o governo chinês recomendou aos seus cidadãos que evitassem viajar para o Japão, impôs limitações a alguma importações do Japão, cancelou eventos culturais envolvendo os dois países ou vinculados à cultura japonesa (incluindo concertos de artistas japoneses na China e um torneio de Pokemon em Shanghai) e exigiu a devolução dos dois pandas-gigantes emprestados ao jardim zoológico de Ueno, em Tóquio (a “diplomacia do panda” é um indicador fidedigno da política externa da RPC: os pandas são emprestados – não oferecidos – a países que conquistaram as boas graças da RPC e chamados de volta quando as relações bilaterais azedam).
Author: José Carlos Fernandes
Published at: 2026-02-07 18:36:42
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