Diante daqueles mapas, Churchill talvez ainda percorresse mentalmente cada colónia, do Norte ao Sul, do Índico ao Pacífico, com a nostalgia e a ternura com que se assiste a um pôr-do-sol: a Índia, húmida de rios largos e fértil de cidades fervilhantes, celeiro humano do império e artéria económica de algodão, chá e impostos, prestes a desprender-se como um continente inteiro; a Birmânia, corredor estratégico entre a Índia e a China, verde e pesada de arrozais e florestas de teca, a madeira ideal para construir um império global de navios, caminhos-de-ferro, portos, pontes e infraestruturas militares, cuja atmosfera de exploração de recursos George Orwell descreve em Burmese Days (1934); a Malásia, com as suas plantações ondulantes de borracha e os portos saturados de estanho, jóia económica tropical e chave naval entre o Índico e o Pacífico; a Palestina, poeirenta de desertos e muralhas antigas, nó geopolítico do Médio Oriente, onde rotas comerciais e conflitos territoriais tornavam cada vez mais insustentável a presença britânica; ou o Egipto, abrasado de sol e atravessado pelo canal que ligava impérios marítimos, eixo vital entre a Europa e a Ásia. Talvez forçando-se a recordar a amarga advertência feita, por si mesmo, a Chamberlain aquando do Acordo de Munique (“Entre a desonra e a guerra, escolhestes a desonra e tereis a guerra”), Churchill percebeu que entre conservar a forma do império e preservar a substância do poder, apenas o sacrifício da primeira permitiria, em última instância, salvar a segunda, ao passo que o sacrifício da segunda jamais salvaria a primeira: garantir a aliança americana na nova ordem mundial – ou seja, Paris – valia bem, portanto, o sacrifício do império – ou seja, a missa. A missa de Churchill teve lugar não sob as abóbadas de uma basílica medieval, mas a bordo do Prince of Wales, onde foi assinada a Carta do Atlântico: a declaração solene de princípios que proclamava o direito dos povos à auto-determinação e o fim da expansão – na verdade, do próprio mundo – imperial.
Author: Tiago Moreira de Sá
Published at: 2026-02-14 00:16:43
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