O problema é que uma comunidade política não se sustenta indefinidamente sobre o negativo — sobre a mera evitação do dano e a gestão do risco — porque chega sempre um momento em que se exige uma decisão sobre fins: sobre segurança e permissividade, pertença e indiferença, autoridade e decomposição, continuidade e ruptura. E nesse vazio de normatividade substancial, aquilo que emerge não é meramente “desinformação” ou “populismo”: é uma luta pela definição do real, isto é, por quem tem o direito de dizer o que é justo, o que é legítimo, e quem pertence ao “povo” enquanto sujeito político. A divisão que vemos — entre o regime e a sua negação, entre o centro e a ruptura, entre o discurso da responsabilidade e o da vingança — não é causa, é consequência: é o sintoma inevitável de um sistema que já não consegue produzir unidade porque já não consegue produzir crença.
Author: Eduardo Almeida Pinto
Published at: 2026-01-31 00:12:57
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