Orígenes e o prazer de desenterrar parábolas

Orígenes e o prazer de desenterrar parábolas


Aquilo que regressa – um rosto, uma palavra, um gesto, um sorriso desigual, uma respiração que reconhecemos no meio do ruído – não vem corrigir o passado nem prometer um futuro imune ao desastre, mas acrescenta à nossa consciência uma tonalidade nova, onde a alegria e a tristeza deixam de ser opostas e passam a entrelaçar-se, como dois fios de cor diferente que se unem num mesmo tecido, e é talvez esse entrelaçamento que nos faz pressentir, com uma lucidez quase dócil, que o que julgávamos perdido continuou, em segredo, a agir dentro de nós. Talvez a verdadeira surpresa não resida no retorno, mas na descoberta de que, durante o tempo da separação, o desejo se exerceu em silêncio, aprendendo a ler sinais, a escutar ruídos indistintos, a seguir rastos quase apagados, e que é precisamente esse exercício secreto que, no momento do reencontro, faz com que o coração reconheça, com uma nitidez pungente, aquilo que jamais deixou verdadeiramente de esperar, como se a memória fosse não um repositório de imagens, mas um animal nocturno que, há tanto, reconhecia passos familiares na escuridão. O reencontro não é, por isso, um fecho, mas uma espécie de dobra no tempo, um ponto em que o antes e o depois se encostam um ao outro e permitem que, durante alguns momentos, sintamos que a nossa vida foi copiada com uma paciência invisível em páginas que desconhecíamos, e que agora se voltam, uma por uma, diante de nós, não para nos explicar o sentido do que aconteceu, mas para nos oferecer a graça discreta de sabermos que nada do que amámos se dissipou.

Author: Paulo Ramos


Published at: 2026-02-14 00:17:46

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