Naquela noite sombria de 1961, um garoto de vinte anos dá o primeiro passo de uma jornada longuíssima, muito menos glamorosa do que pintam-na certos fãs e detratores, e o diretor vai erigindo seu complexo perfil de Dylan apoiando-se em cenas que explicam a obstinação do músico por apuro estético sem prescindir do total domínio de cada nota, como se as canções fossem organismos autônomos, independentes de sua vontade, e fossem capazes de existir sem ele. Se a ficha de Rotolo — cujo nome é trocado para Sylvie Russo a pedido de Dylan — demora a cair, Johnny Cash (1932-2003), o autor de “It Ain’t me Babe”, via naquele garoto magricela de cabelos desgrenhados um parceiro eventual e um concorrente talentoso, polêmica que Mangold troca pela menção à entrada de instrumentos elétricos nas performances de Dylan, repudiada pela audiência e motivo de apupos fragorosos. Cada vez menos um menino bonito e mais e mais um dos melhores intérpretes da sua geração, como resta evidente em sua filmografia de mais de duas dezenas de ótimos trabalhos na tela grande, Chalamet torce “Um Completo Desconhecido” a seu gosto, decidindo por si só quando é o momento de apertar a rédea de seu Dylan ou deixá-la mais frouxa, embora o temperamento do biografado pareça mesmo o de alguém quase imune à opinião alheia.
Author: Amanda Silva
Published at: 2026-03-08 23:06:20
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