Minha Semana Santa (por José Sarney)

Minha Semana Santa (por José Sarney)


Mais de uma vez Marly e eu, com o casal Emília e Álvaro Pacheco — meu saudoso amigo —, pegamos o táxi do inesquecível Seu Pedro, uma Mercedes preta, e, durante a Semana Santa, fomos pelo interior de Portugal até Santiago de Compostela, aonde sempre chegávamos na quinta-feira à noite e nos hospedávamos no Hostal dos Reis Católicos, ao lado da Catedral, com sua praça cheia de peregrinos, chegando de todos os lugares do mundo para assistir às solenidades litúrgicas, desde as procissões dos encapuçados até as bênçãos do óleo e da vela, na Matriz de novecentos anos, que fica, durante todo o ano, com sua chama acesa, com o cheiro de incenso do Botafumeiro invadindo e perfumando toda a igreja, mas sem a missão do passado: eliminar o odor dos corpos sem higiene que assistiam a missas e sermões na Idade Média. Deus era a sombra que eu sabia ter me dado a vida e que me assegurava a Eternidade, que naqueles tempos não era o céu prometido, mas o paraíso que ele me Ele dera para viver na Terra: a casa do meu avô, o engenho, os campos verdes, os sons dos sinos tocando nas alegrias, até que com os anos a vida passasse a ter o cheiro azedo da garapa. Não a ausência da guerra, mas a presença da paz dentro de nós mesmos, sem nada a cobrar, sem ressentimentos, sem a desgraça corroendo o corpo e a alma pela escravidão da maldade.

Author: Metrópoles


Published at: 2026-04-03 14:00:40

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