A perspectiva visceral de uma personagem cheia de nuanças diante de um conflito que só faz se agravar, as consequências ético-morais das atitudes que toma a fim de debelar a crise e a elaboração reflexiva sobre um episódio da história política moderna da Espanha vêm a lume cada qual no momento que o diretor-roteirista julga mais adequado, e o julgamento de Almodóvar nunca é leviano. A discussão de assuntos colaterais, a exemplo do quão tóxica pode ser a chegada de um filho, sobretudo sem o devido esteio familiar para essa nova mãe (e, ainda mais importante, sem o necessário conforto espiritual de que ela certamente há de se ressentir), junto com as chagas ainda por se fecharem na Espanha, alusão aos mortos e desaparecidos políticos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) — argumento trabalhado de maneira insatisfatória por Almodóvar, que se presta mesmo só a justificar a presença do personagem de Elejalde —, vêm à superfície com força e propósito desiguais, dando-se preferência, acertadamente, ao primeiro, malgrado, pesando-se um pouco a mão, se possa alegar que em “Mães Paralelas” ambos funcionem como um trampolim de onde o diretor se lança para uma terceira abordagem. Passados mais de oitenta anos do fim desses conflitos, marcados pelo enfrentamento bárbaro de nacionalistas e fascistas e o rastro de meio milhão de mortos responsável por abrir caminho para a ditadura igualmente sanguinária de Francisco Franco (1892-1975), Janis ainda não sabe o que foi feito do cadáver do bisavô, infortúnio que contribui para o problema que o nascimento de Cecilia acaba encerrando, e é essa a essência do filme.
Author: Giancarlo Galdino
Published at: 2025-12-30 17:15:23
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