Grande Sertão: Veredas, 70 anos: o livro que mudou a língua — e ainda muda quem lê

Grande Sertão: Veredas, 70 anos: o livro que mudou a língua — e ainda muda quem lê


Um network, no qual o sertão é o mapa alegórico do Brasil: o sistema jagunço, a instituição entre a lei e o crime, o pacto com o Diabo, a alegoria de um falso pacto social; a figura de Diadorim, o desafio para desvendar o dissimulado e o desconhecido; e a fala do povo, o próprio labirinto da língua… Essa rede ficcional serve de medium para observar e investigar a rede dos discursos sobre o país”, diz Bolle. João Adolfo Hansen também pensou o livro de Rosa no sentido de uma máquina ou um dispositivo: “Todo o Grande Sertão: Veredas é máquina heteróclita de produção de efeitos de essências e reminiscências: como máquina, suas partes diferentes — encaixes, polias, engrenagens, motor — são artificiosíssimas em seu maneirismo, i.é., funcionam bem, e isso significa: não funcionam, fazem que outros funcionem, transmitem, engatam outras experimentações imaginárias: platonismo da mímese, livro de sociologia, exemplificação psicanalítica, estudo gramatical e linguístico, análise estrutural e análise estruturalista, ilustração semiótica, ajustes de contas com a Verdade do realismo socialista, cantigas de comover de amigos, declaração de amor e de ódio, filme, romance fluvial sem fim joyceano, partilhas acadêmicas, assunção vanguardista”. O desfecho de Diadorim subverte a lógica do que Doris Sommer chamou de “romances fundacionais” do século 19, em que o encontro amoroso entre um homem e uma mulher sela simbolicamente a fundação de uma nação.

Author: Enio Vieira


Published at: 2026-02-08 17:16:07

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