Em “Eu Não Sou Um Homem Fácil”, Éléonore Pourriat oferece uma reflexão divertida — porém séria — sobre como seria a vida caso os paradigmas de comportamento do que se pacificou encarar com naturalidade para cada sexo (ou gênero, para não afrontar o politicamente correto) voltassem a uma espécie de limbo e ressurgissem novos, com homens tendo de lidar com as dificuldades das mulheres e estas, por sua vez, experimentassem o fardo de sentir-se permanentemente acossadas pela eterna de necessidade de ser bem-sucedido, no trabalho, na vida pessoal, diante do espelho e, o mais importante, sobre a cama, fantasma que persegue o macho da puberdade à missa de sétimo dia, a uns de forma mais doentia que a outros. Transitando com desassombro da tensão para um humor ora fino, ora rasgado, Vincent Elbaz responde com brilhantismo ao que o roteiro de Pourriat e Ariane Fert quer dele, e já na primeira sequência, depois que um garoto aceita voluntariamente usar o figurino de Branca de Neve para uma peça na escola e é espinafrado pelos colegas e, o mais grave, pelos pais dos outros alunos e os professores, entende-se muito de sua imaturidade, que vai degringolando em insegurança, medo e na urgência de constantemente afirmar e reafirmar sua virilidade, bengala retórica de que se vale para defender-se de ataques que ninguém jamais pretendera lhe fazer. A diretora e sua corroteirista adaptam a seu talante o argumento de produções hollywoodianas comercialmente fortes, a exemplo de “Do Que as Mulheres Gostam” (2000), de Nancy Meyers, mas com o sinal trocado, e como efeito da cena do menino que vive um linchamento moral em tenra idade por quem deveria acolhê-lo, surge Damien, estirado sobre um divã numa sessão de psicanálise, revelando o trauma que define sua vida e dela se apossa feito erva daninha num jardim malcuidado.
Author: Giancarlo Galdino
Published at: 2025-12-31 20:21:32
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