Esta oposição foi sendo lentamente consolidada durante o período de expansão ultramarina europeia, a partir do final do século XV e, no final do século XVIII, à medida que a superioridade tecnológica europeia (nomeadamente no domínio da artilharia, dos navios e dos métodos de orientação) se impôs, “começou a surgir uma nova perspectiva geopolítica [que] estabeleceu a Europa como ponto de referência do ‘Oeste’ e do ‘Norte’ e também de um conjunto de associações civilizadas, inventivas e prósperas. Noutras parte do mundo, o ressentimento anti-ocidental tinha outras razões e outro discurso: em África, nas Caraíbas, na América Central e do Sul e nas comunidades étnicas minoritárias da Europa e dos EUA, a denúncia do Ocidente passava pelo racismo, pela escravatura, pelo extractivismo, pelo genocídio dos povos indígenas e pela supressão da cultura e das línguas indígenas e da imposição das culturas e línguas das potências coloniais (ver Escravatura: Culpa, ressentimento e histórias mal contadas e O que o mundo moderno deve à exploração de África e dos africanos). É tentador estabelecer uma analogia entre o conceito de “masculinidade tóxica”, emanado dos círculos feministas e que postula, na sua versão mais extremada, que os rapazes e os homens possuem uma propensão inata para o bullying, para o abuso sexual e para a violência sobre as raparigas e as mulheres, entendimento que tem conquistado lugar proeminente no espaço público, e o conceito de “ocidentalidade tóxica”, ou seja, a ideia de que, ao longo da história da humanidade, o homem branco (nascido na Europa ou nas suas ramificações coloniais) tem propensão inata para ser o bully, o violador e o agressor dos povos não-brancos.
Author: José Carlos Fernandes
Published at: 2025-12-31 14:55:13
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