Em poucos meses, a escrita abrira-se como uma ferida luminosa: a crítica saudara nela uma voz rara; os amigos reconheceram-lhe uma solidão soberana; Tennessee Williams, que conhecia como ninguém a precariedade dos corpos e das almas, chamou-lhe a maior romancista americana viva, e Edith Sitwell escreveu que a sua obra parecia já um legado, como se tivesse sido deixada por alguém que atravessara o tempo. O irmão rapidamente perdeu o interesse e pô-lo de lado, não sem antes ter feito algo perturbador: recortou um buraco quadrado no centro de todas as páginas, de maneira que o livro, apesar de intacto por fora, apresentava no interior uma concavidade onde ele escondera uma moeda de um cêntimo e um boneco em chumbo de um pequeno burro. Há sempre um buraco no centro das histórias de McCullers, um vazio que organiza tudo: o amor, o sexo e o desejo não se apresentam como narrativas completas, mas como zonas de falha.
Author: Paulo Ramos
Published at: 2026-01-10 00:15:28
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