As considerações acima apresentadas sobre escassez de recursos, pobreza de solos, condições climáticas adversas e dificuldades de comunicação visam realçar quão árdua, periclitante e imprevisível era a vida humana em muitos pontos do planeta antes de a tecnologia e a logística modernas terem surgido – algo que a classe média dos países desenvolvidos do séculos XXI tende a esquecer, uma vez que vive numa bolha de abundância, conforto e previsibilidade: passa boa parte do seu tempo de trabalho e de lazer em ambiente climatizado; frequenta supermercados onde a maior angústia que enfrenta é decidir-se entre uma centena de variedades de cereais de pequeno-almoço; desloca-se em automóveis equipados com volante aquecido e bancos com massagem; alimenta os seus cães e gatos com comida enlatada que é superior, em termos de valor nutritivo, higiene e requinte, ao farnel do típico mineiro ou operário fabril do século XIX; e dispõe, no seu smartphone, de apps que lhe permitem instruir a sua “casa inteligente” para ligar o pavimento radiante uma hora antes do regresso ao lar e satisfazer um súbito apetite por comida tailandesa mediante a convocação instantânea de um solícito estafeta nepalês. As ideias de intimidação, de conquista, de engrandecimento e de desrespeito pelas regras (algo que só os “suckers” e os “losers” seguem) são parte intrínseca da natureza de Trump e, embora seja improvável que tenha lido Mein Kampf, ou saiba o significado dos conceitos de Lebensraum e de Großgermanisches Reich, é natural que partilhe com próceres nacionalistas de outros tempos a ideia de que o seu país tem direito a apropriar-se de tudo o que possa reforçar a sua segurança e garantir a sua prosperidade – e tanto melhor se, ao mesmo tempo, garantir também a prosperidade da Trump Organization e do seu círculo de familiares e de parceiros de negócios. Por outro lado, mesmo que se admita que a presença militar dos EUA na Gronelândia é crucial para a segurança do país, a verdade é que 1) o único país que hoje tem presença militar na Gronelândia, para lá da Dinamarca, são os EUA; 2) ao abrigo do Tratado de Defesa Mútua da Gronelândia de 1951, os EUA têm direito a reforçar essa presença; 3) é improvável que a Dinamarca, aliada de longa data dos EUA e membro da NATO, levante objecções a esse reforço; 4) os EUA já tiveram muito mais bases, militares e equipamento na Gronelândia e foram eles que, por sua iniciativa, reduziram drasticamente a sua presença; 5) não há registo de militares ou empresas ou quaisquer entidades chinesas ou russas a operar no território da Gronelândia ou nas suas águas territoriais (ainda que seja verdade que Rússia e China têm incrementado a sua actividade no Árctico, à medida que o aquecimento do planeta aumentou a sua navegabilidade).
Author: José Carlos Fernandes
Published at: 2026-01-17 18:49:24
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