Responsabilizou-se pela segurança da Ucrânia sem ambiguidades numa Europa pós-americana; afrontou sem concessões a ameaça russa (não conseguindo no final financiar o esforço de guerra com os activos russos “congelados”); comprometeu-se sem as hesitações anteriores com o rearmamento alemão; denunciou como um “erro estratégico grave” o abandono da produção de energia nuclear, o que tornou a transição energética alemã “a mais cara do mundo”, provocando a delapidação da sua lendária capacidade industrial; inverteu a política migratória e a retórica cultural da coesão social; exasperou-se com a estagnação reformista e a propensão burocrática do seu país e, por arrastamento, da Europa; advertiu que a dependência económica relativamente à China e o apagamento geoestratégico relativamente ao resto do mundo não eram mais sustentáveis. Numa altura tão longínqua da nossa tenra consciência moral, em que o ódio político e a crispação eram piamente valorizados como sinónimos de heroísmo cívico e pose respeitável, Merkel foi vilipendiada como a maestrina perversa das desgraças portuguesas, o que ajudava a camuflar as responsabilidades de quem, cá dentro, atirara o País para o fundo. Como correlativo desta lista de abdicações e impotências, a AfD, insignificante 10 anos antes, disparou para, não obstante as ligações sinistras a poderes duvidosos, ameaçar a estrutura do sistema político alemão que sustentou a prosperidade e a liberdade da república federal em tempos sediada em Bona.
Author: Miguel Morgado
Published at: 2026-01-25 00:19:57
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