A actualidade do julgamento de Nuremberga

A actualidade do julgamento de Nuremberga


É muito significativo que o rabino-chefe de Roma, Israel Anton Zolli, ao converter-se, em1945, ao catolicismo, tenha adoptado o nome próprio de Pio XII, Eugénio, em reconhecimento pelo que este Papa fez pelo povo da antiga aliança, aliás patente na encíclica Mit brennender Sorge (1937), que condena o nacional-socialismo e que, embora assinada pelo seu predecessor, de facto foi atribuída a Pio XII. Um argumento repetidas vezes usado pelos réus e que também foi referido por Adolf Eichmann, no seu julgamento pela sua participação activa na deportação e massacre de milhares de judeus, é o de saber até que ponto a obediência à lei e à autoridade constituída não iliba o executante de um mandato injusto, sobretudo se a sua eventual oposição, ou desobediência, certamente implicar, pela certa, a sua execução, sem vantagem aparente para as vítimas, pois não faltaria quem, em sua substituição, executasse a ordem iníqua. Mesmo que se possa admitir, nalguns casos, que a obediência devida ao legítimo superior atenua a culpa ou desresponsabiliza quem se limita a cumprir o mandato que lhe foi imposto, sobretudo em período de guerra, a verdade é que há injustiças tão flagrantes que nenhum ser humano as pode admitir como lícitas e, portanto, todos os subordinados têm o dever moral de desobedecer, mesmo que seja à custa das suas próprias vidas.

Author: P. Gonçalo Portocarrero de Almada


Published at: 2026-01-10 00:16:35

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